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Xuntian: o rival chinês do Hubble que só deve subir em 2027

O Xuntian, telescópio espacial da China, era previsto para 2024 e agora deve subir em 2027. Veja o que ele fará e como se compara ao Hubble.
telescópio espacial chinês xuntian
Ilustração artística do telescópio espacial Xuntian, projetado para explorar o universo com um campo de visão 300 vezes maior que o do Hubble. (crédito: China National Space Administration)

O Xuntian, telescópio espacial da China, ainda não foi lançado. A previsão mais recente é 2027. Em 2022, o plano era que ele já estivesse em operação por volta de 2024.

Ele terá um espelho de 2 metros, da classe do Hubble, mas um campo de visão ao menos 300 vezes maior. E poderá fazer algo raro: atracar na estação espacial chinesa para ser consertado e atualizado.

Maquete branca do telescópio espacial chinês Xuntian exposta sobre um suporte no Museu Nacional da China
Maquete do Xuntian no Museu Nacional da China. O painel ao fundo diz que o telescópio vai voar sozinho e atracar na estação espacial por curtos períodos para reabastecimento, manutenção e atualização. Foto: Shujianyang / Wikimedia Commons, domínio público (CC0).

Quando o Xuntian será lançado

A equipe responsável pelo telescópio, do Observatório Astronômico Nacional da China, escreveu em janeiro de 2025 que ele seria lançado “por volta de 2027”. Um ano depois, em janeiro de 2026, o site Space.com informou que os preparativos estavam na fase final, para um lançamento a partir do início de 2027.

Não é a primeira data anunciada. Veja como a previsão evoluiu:

Quando a previsão foi feita O que se previa
Julho de 2022 (TV estatal chinesa CCTV) Operação científica por volta de 2024
Janeiro de 2025 (equipe do projeto) Lançamento por volta de 2027
Fevereiro de 2025 (Live Science) Lançamento não antes de 2026
Janeiro de 2026 (Space.com) Lançamento a partir do início de 2027

O telescópio vai subir num foguete Longa Marcha 5B. Nenhuma das fontes consultadas traz uma data exata, nem explica por que o cronograma mudou.

Em janeiro de 2026, a equipe chinesa publicou uma simulação completa das observações na revista científica Research in Astronomy and Astrophysics. Segundo a agência estatal Xinhua, o trabalho serve para preparar o processamento dos dados antes do lançamento e a operação científica depois dele.

O que é o Xuntian

O nome oficial em inglês é China Space Station Telescope (CSST), ou Telescópio da Estação Espacial Chinesa. Em mandarim, Xuntian quer dizer algo como “percorrer o céu”, o que resume a missão.

É uma das grandes instalações astronômicas do programa espacial tripulado da China. Tem o tamanho de um ônibus, e em 2022 a CCTV informava que pesaria mais de dez toneladas.

O Xuntian é um telescópio de levantamento. Em vez de olhar fixamente para um ponto do céu, ele vai fotografar áreas enormes para montar mapas do Universo.

Xuntian x Hubble: o que muda

A comparação mais útil é com o Hubble, que tem espelho do mesmo porte.

Xuntian Hubble
Espelho principal 2 metros Um pouco maior que o do Xuntian
Campo de visão Ao menos 300 vezes maior que o do Hubble Referência
Manutenção Planejada: atracação na estação Tiangong Feita por astronautas da NASA cinco vezes, entre 1993 e 2009

O campo de visão é a grande diferença. Com o mesmo tamanho de espelho, o Xuntian enxerga uma área do céu muito mais larga a cada foto. É o que permite fazer levantamentos de grandes regiões.

Segundo autoridades chinesas citadas pelo Space.com, a câmera principal terá 2,5 bilhões de pixels. Ela vai cobrir do ultravioleta próximo ao infravermelho próximo, de cerca de 255 a 1.000 nanômetros.

E o James Webb?

Algumas reportagens apresentam o Xuntian como rival do James Webb. A comparação engana. O Webb foi feito para observar no infravermelho e enxergar muito longe em pontos específicos do céu. O Xuntian foi feito para cobrir grandes áreas.

A própria equipe do projeto compara o Xuntian a outros telescópios de levantamento: o europeu Euclid, lançado em 2023, o Nancy Grace Roman, da NASA, e o Observatório Vera C. Rubin, que fica em terra. Cada telescópio enxerga uma faixa de luz diferente, como explicamos no artigo sobre o telescópio PRIMA, da NASA.

Como funciona a manutenção na estação Tiangong

Este é o principal diferencial do Xuntian. Ele vai voar sozinho, a cerca de 400 km de altitude, no mesmo plano orbital da estação espacial chinesa Tiangong.

Segundo a Xinhua, o telescópio vai passar longos períodos observando sozinho e atracar na estação por curtos períodos, para reabastecimento, manutenção e atualização. A mesma frase aparece no painel que acompanha a maquete do telescópio no Museu Nacional da China.

Um vídeo da CCTV mostra como seria. Depois da atracação, astronautas fariam caminhadas espaciais para manter, consertar ou atualizar o telescópio.

Por que isso importa? Um telescópio espacial costuma ter vida limitada: quando uma peça falha ou um instrumento fica ultrapassado, não há como trocar. O Hubble foi exceção porque ficava ao alcance dos ônibus espaciais da NASA. Segundo o astrofísico Paul Sutter, na Live Science, os outros grandes telescópios de levantamento não terão essa possibilidade.

Em 2022, o plano previa uma vida útil de dez anos, que poderia ser estendida com manutenção. Por enquanto, tudo isso é plano. A primeira atracação só poderá acontecer depois do lançamento.

O que o Xuntian vai observar

O levantamento principal vai cobrir 17.500 graus quadrados do céu em dez anos. Pelas nossas contas, é cerca de 42% do céu inteiro. Haverá ainda um levantamento profundo, de 400 graus quadrados, e um ultraprofundo, de 9 graus quadrados, feito nos dois primeiros anos.

O foco principal é a cosmologia, o estudo da origem e da evolução do Universo:

  • Matéria escura. A luz de galáxias distantes se curva levemente no caminho até nós, por causa da matéria que está no meio. Medindo essa distorção em muitas galáxias, os cientistas podem mapear onde está a matéria, inclusive a que não emite luz.
  • Energia escura. O tamanho e a distância entre vazios e aglomerados de galáxias dependem da energia escura, que parece acelerar a expansão do Universo.
  • Supernovas e oscilações acústicas de bárions. As duas funcionam como réguas para medir distâncias cósmicas. Supernovas distantes já são alvo de outros telescópios, como na supernova mais distante já registrada pelo James Webb.

A equipe projeta que o Xuntian poderá medir propriedades da energia escura e da matéria escura com precisão de poucos por cento, além de testar as teorias da gravidade. É uma estimativa feita antes do lançamento, não um resultado.

O telescópio também vai estudar galáxias, a Via Láctea, estrelas, o Sistema Solar e exoplanetas. Para os exoplanetas, ele terá um coronógrafo, instrumento que bloqueia a luz de uma estrela para revelar planetas ao redor dela.

Segundo Ji Jianghui, pesquisador do Observatório da Montanha Púrpura, a simulação de 2026 deu uma “expectativa clara” da capacidade chinesa de fotografar exoplanetas diretamente.

Os cinco instrumentos do Xuntian

Segundo a equipe do projeto, o telescópio levará cinco instrumentos:

  1. Câmera de levantamento, que fotografa e separa a luz de grandes áreas do céu
  2. Imageador multicanal
  3. Espectrógrafo de campo integral, que decompõe a luz de cada ponto de uma região
  4. Coronógrafo para imagem de planetas frios
  5. Espectrômetro de terahertz

O que ainda não se sabe

  • A data exata do lançamento
  • Por que o cronograma mudou
  • Quanto o telescópio custa
  • Se cientistas de outros países terão acesso aos dados
  • Quando acontecerá a primeira manutenção na estação

As informações deste artigo vêm do artigo científico da equipe do projeto, da agência Xinhua e do Space.com.

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