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Bateria de diamante: dura milênios, mas não liga um celular

A bateria de diamante existe, mas só como protótipo. Pode durar milhares de anos, mas gera tão pouca energia que não liga um celular. Entenda.
Brilho azul fraco de uma película de diamante feita com carbono-14, fotografado em fundo escuro por câmera de baixa luz
Brilho fraco de uma película de diamante feita com átomos de carbono-14, captado por uma câmera de baixa luz. Imagem: Universidade de Bristol.

A bateria de diamante existe, mas ainda não saiu do laboratório. A primeira com carbono-14 foi anunciada em dezembro de 2024 por cientistas britânicos, e não está à venda.

Ela pode funcionar por milhares de anos, mas gera pouquíssima energia. Pelas nossas contas, levaria cerca de dois anos e meio para produzir o que uma pilha AA comum guarda. Por isso, não serve para celular.

O que é a bateria de diamante

É uma bateria que gera eletricidade a partir de um material radioativo, o carbono-14, preso dentro de um diamante fabricado em laboratório. O carbono-14 é o mesmo isótopo usado na datação por radiocarbono, que estima a idade de fósseis e objetos antigos.

Ela foi criada por cientistas da Universidade de Bristol e da Autoridade de Energia Atômica do Reino Unido (UKAEA). O anúncio saiu em 4 de dezembro de 2024.

O funcionamento lembra o de um painel solar. O painel captura partículas de luz. A bateria de diamante captura elétrons rápidos, liberados quando o carbono-14 decai dentro da estrutura do diamante.

Por isso, ela não tem partes móveis. Não precisa de manutenção e não emite carbono.

O carbono-14 existe na natureza, mas se acumula em grande quantidade nos blocos de grafite usados em usinas nucleares, principalmente na superfície. É de lá que ele pode ser aproveitado.

Quanto tempo dura uma bateria de diamante

O carbono-14 tem meia-vida de 5.700 anos, segundo a Universidade de Bristol e a UKAEA. Isso quer dizer que, depois desse tempo, metade dele terá decaído.

Na prática, a bateria levaria 5.700 anos para chegar a 50% da potência. É uma estimativa baseada na física do isótopo, não um teste: nenhuma bateria funcionou por tanto tempo.

Quanta energia ela gera

Pouquíssima. A própria UKAEA descreve a bateria como uma fonte contínua de energia na escala de microwatts, ou seja, milionésimos de watt.

Segundo a Live Science, uma bateria com 1 grama de carbono-14 geraria 15 joules de eletricidade por dia. Para comparar, uma pilha AA alcalina pesa cerca de 20 gramas e armazena 700 joules por grama.

Pilha AA alcalina Bateria de diamante (1 g de carbono-14)
Energia Cerca de 14.000 joules guardados (cálculo nosso) 15 joules gerados por dia
Duração Acaba em até 24 horas, segundo a Live Science Chega a 50% da potência em 5.700 anos
Para igualar a pilha AA — Cerca de 2 anos e meio (cálculo nosso)

A pilha entrega muita energia de uma vez e acaba. A bateria de diamante entrega um fio de energia que quase não acaba. É como comparar uma caixa d’água com uma torneira que pinga por milênios.

Bateria de diamante funciona em celular?

Não. A energia é pequena demais.

Mesmo a bateria nuclear chinesa da empresa Betavolt, que gera 100 microwatts, está longe disso. Pelas nossas contas, seriam necessárias 10.000 delas juntas para chegar a 1 watt.

Celular não aparece entre as aplicações que a Universidade de Bristol e a UKAEA citam. A ideia é outra: alimentar aparelhos que consomem muito pouco, mas precisam funcionar por décadas sem troca de bateria.

Para que serve a bateria de diamante

Segundo Bristol e a UKAEA, as aplicações possíveis incluem:

  • Dispositivos médicos: marca-passos, aparelhos auditivos e implantes oculares, reduzindo a necessidade de trocar a bateria
  • Espaço: etiquetas de radiofrequência para identificar e rastrear naves e cargas por décadas
  • Ambientes extremos na Terra: como máquinas de petróleo e gás no fundo do mar, segundo a Live Science

Todas são aplicações potenciais. Nenhuma está em uso.

A UKAEA vai além e diz que, “com mais pesquisa”, a tecnologia poderia um dia substituir as baterias de lítio. É uma projeção da instituição, sem prazo.

A bateria de diamante é segura?

Segundo os pesquisadores, sim. O carbono-14 emite uma radiação de curto alcance, que é absorvida rapidamente por qualquer material sólido.

O carbono-14 puro seria perigoso se ingerido ou tocado com as mãos. Na bateria, o diamante envolve o material e impede que a radiação escape. “O diamante é a substância mais dura conhecida. Não há literalmente nada que possamos usar que ofereça mais proteção”, disse Neil Fox, professor da Universidade de Bristol.

Mesmo assim, o carbono-14 é um isótopo regulado no Reino Unido, e o projeto exigiu protocolos rígidos de segurança, segundo a UKAEA.

Dá para comprar uma bateria de diamante?

Não. Nenhuma das fontes consultadas mostra produto à venda até outubro de 2026.

A pesquisa avançou em etapas:

Quando O que aconteceu
2017 Bristol mostra um protótipo com níquel-63
Setembro de 2024 Primeiros dispositivos de diamante com carbono-14
Dezembro de 2024 Anúncio da bateria de carbono-14, com a UKAEA
Agosto de 2025 Primeiro protótipo pré-comercial testado, com a empresa suíça Smolsys

Os avanços são divulgados pela Arkenlight, empresa ligada à equipe de Bristol. Desde 2024, ela diz que busca investimento para montar uma fábrica piloto.

O diamante foi crescido num equipamento de deposição a plasma no campus da UKAEA em Culham, no Reino Unido. Segundo a UKAEA, o avanço veio em parte da experiência do órgão com fusão nuclear. A pesquisa de Bristol teve financiamento da Agência Espacial Europeia.

Não confunda: a bateria nuclear chinesa

Em janeiro de 2024, a empresa chinesa Betavolt anunciou a BV100, também chamada de bateria nuclear. É outra tecnologia, e a confusão entre as duas é comum.

Bateria de diamante britânica Betavolt BV100 (China)
Material radioativo Carbono-14 Níquel-63
Papel do diamante Envolve o carbono-14 e capta os elétrons Converte a energia do níquel-63
Anúncio Dezembro de 2024 Janeiro de 2024
Energia 15 joules por dia por grama 100 microwatts
Tamanho divulgado — 15 × 15 × 5 milímetros

A Betavolt disse que a BV100 seria a primeira bateria nuclear produzida em massa e que lançaria uma versão de 1 watt em 2025. A fonte consultada não confirma que isso tenha acontecido.

A empresa também afirmou que, “se as políticas permitirem”, um celular com bateria nuclear nunca precisaria ser carregado. É uma promessa da empresa. Os números que ela mesma divulgou mostram a distância: 100 microwatts por bateria.

O que ainda não se sabe

  • Quanto uma bateria de diamante vai custar
  • Quando, ou se, chegará ao mercado
  • Qual a eficiência da conversão de energia
  • Se a Betavolt de fato produziu a BV100 em massa
  • Se a tecnologia vai chegar ao Brasil

As informações deste artigo vêm dos comunicados da Universidade de Bristol e da UKAEA, da Arkenlight, da Live Science e da World Nuclear News.

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