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Telescópio PRIMA da NASA: o que ele vê que o Webb não 

A NASA selecionou o telescópio PRIMA, previsto para 2033. Ele não substitui o James Webb: enxerga comprimentos de onda que o Webb não alcança.
Concepção artística do telescópio espacial PRIMA da NASA

Não, o telescópio PRIMA não vai substituir o James Webb. Ele foi projetado para enxergar uma faixa de luz que o Webb simplesmente não capta — e é por isso que a NASA decidiu construí-lo.

 

A agência anunciou na quarta-feira, 23 de setembro, que selecionou o PRIMA para desenvolvimento. A missão avançou para a Fase B, etapa de projeto preliminar e tecnologia. O lançamento não deve acontecer antes de 2033.

 

O que é o telescópio PRIMA

 

PRIMA é a sigla de Probe far-Infrared Mission for Astrophysics. O equipamento terá um espelho de 1,8 metro e observará o cosmos no infravermelho distante.

 

O infravermelho não é uma faixa única. Ele se divide em próximo, médio e distante, conforme o comprimento de onda aumenta. Cada trecho revela fenômenos diferentes, e nenhum telescópio cobre todos.

 

O James Webb, lançado em 2021, foi construído para detectar o infravermelho próximo e o médio. Hubble e o recém-lançado Nancy Grace Roman também captam parte do infravermelho.

 

Nenhum deles alcança a faixa do telescópio PRIMA. É uma divisão de trabalho, não uma disputa.

 

Se a missão se concretizar, o Jet Propulsion Laboratory da NASA fará a gestão, com participação de outros centros da agência e de parceiros internacionais. A Universidade de Maryland e o Caltech ajudaram no desenvolvimento.

 

Por que o PRIMA não substitui o James Webb

 

A diferença está no comprimento de onda, e é uma limitação física — não uma questão de o PRIMA ser “melhor”.

 

Meredith MacGregor, professora associada de física e astronomia na Johns Hopkins, explicou o ponto à Live Science. Segundo ela, as perguntas científicas do telescópio PRIMA não podem ser respondidas pelo Webb.

 

“As linhas espectrais necessárias estão apenas no infravermelho distante — comprimentos de onda mais longos do que aqueles aos quais o JWST é sensível”, disse MacGregor.

 

Em outras palavras: o Webb não enxerga menos. Ele enxerga outra coisa. O infravermelho distante é onde aparecem o gás frio e a poeira que dão origem aos planetas, e esse material fica invisível nas faixas que o Webb cobre.

 

Por isso a manchete de que o PRIMA “vê mais fundo” que o Webb pede cuidado. Ver mais fundo, aqui, significa alcançar comprimentos de onda maiores — não ganhar do Webb naquilo que o Webb faz bem.

 

Os dois instrumentos, se tudo correr como planejado, funcionarão ao mesmo tempo e sobre objetos complementares.

 

O que o telescópio PRIMA vai investigar

 

A missão terá três focos: origem de exoplanetas, crescimento de galáxias e evolução de buracos negros.

 

Na formação de planetas, MacGregor detalhou os objetivos. O telescópio PRIMA deve quantificar o papel da água nesse processo. Também deve determinar as massas totais de gás e as abundâncias de carbono e oxigênio nos discos onde os exoplanetas se formam.

 

A pergunta por trás disso não é quais planetas existem, mas onde e como eles nascem. São coisas diferentes, e a segunda ainda tem poucas respostas.

 

Alberto Bolatto, astrônomo observacional da Universidade de Maryland, lidera a pesquisa de evolução de galáxias na missão. Em comunicado, ele disse estar mais animado “com as coisas que ainda não sei”.

 

Lee Armus, cientista do Caltech e líder de operações científicas, destacou outro interesse. Ele quer entender o papel dos fluxos moleculares nas galáxias ao longo do tempo cósmico, e como eles moldam a formação estelar e o crescimento de buracos negros supermassivos.

 

US$ 1,2 bilhão contra os US$ 10 bilhões do Webb

 

O telescópio PRIMA tem teto de custo de US$ 1,2 bilhão, sem contar lançamento e outras despesas fora do projeto.

 

O James Webb custou US$ 10 bilhões quando foi lançado, em 2021 — número que não considera inflação nem despesas de lançamento. A diferença passa de oito vezes.

 

Esse contraste não é acidental. O PRIMA inaugura uma categoria que a NASA chama de Probe Explorers, pensada para ficar entre as missões emblemáticas no estilo do Webb e os projetos menores da agência.

 

Na prática, é uma aposta em fazer ciência específica e bem delimitada por uma fração do custo de um observatório de uso geral.

Os Probe Explorers integram o Explorers Program, que começou com o lançamento do Explorer 1 em 1958 e já soma mais de cem missões.

 

A nova categoria nasceu de uma recomendação do Decadal Survey de 2020, relatório de consenso emitido pelas Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina em nome da comunidade científica.

 

Em 2024, a NASA financiou dois conceitos com US$ 5 milhões cada. Concorriam o PRIMA e o Advanced X-ray Imaging Satellite. O PRIMA foi o escolhido.

 

O que ainda não está garantido

 

Vale separar o que já aconteceu do que é plano, porque a cobertura costuma misturar as duas coisas.

Já aconteceu: a NASA selecionou o telescópio PRIMA e a missão avançou para a Fase B, de projeto preliminar.

 

Ainda não aconteceu: gestores precisam revisar o progresso antes de iniciar oficialmente a trajetória rumo ao lançamento. A data de 2033 é o cenário mais cedo possível, condicionado a tudo correr conforme o planejado. A operação está prevista para durar cinco anos.

 

Nenhum instrumento foi construído até agora. O que existe é uma decisão de desenvolvimento e um teto de orçamento.

 

Projetos espaciais desse porte costumam atrasar, e o próprio James Webb é o exemplo mais conhecido. Tratar 2033 como data confirmada seria precipitado.

 

Para quem acompanha a busca por mundos habitáveis, o PRIMA se soma ao que o James Webb já vem encontrando em exoplanetas — e pode ajudar a responder onde esses planetas se formam, não apenas quais existem. Um bom exemplo do tipo de pergunta em aberto é o caso do exoplaneta K2-18b e os sinais detectados pelo Webb.

 

Fonte: Live Science, por Elizabeth Howell

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