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SCUBE3 funciona contra a calvície? O que se sabe até hoje

A SCUBE3 estimulou o crescimento de cabelo em camundongos, mas nunca foi testada em pessoas. Veja o que o estudo mostrou e onde a pesquisa parou.
Homem de meia-idade com sinais de calvície olhando atentamente para o espelho e tocando o cabelo

A SCUBE3 é uma proteína que estimulou o crescimento de cabelo em testes com camundongos, mas nunca foi testada em pessoas. Não existe remédio aprovado com ela.

A descoberta foi publicada em 2022 por pesquisadores liderados pela Universidade da Califórnia em Irvine (UCI). Desde então, a molécula foi licenciada para uma empresa, ganhou o nome de AMP-601 e não aparece em nenhum comunicado público desde janeiro de 2023.

Diagrama de um folículo capilar em corte, com o fio, a glândula sebácea e a papila dérmica na base
A SCUBE3 é produzida na papila dérmica (Papilla, no diagrama), na base do folículo, e avisa as células-tronco vizinhas para começarem a se dividir. Ilustração: National Institutes of Health (NIH), domínio público, via Wikimedia Commons.

 

O que é a SCUBE3

Na base de cada folículo fica a papila dérmica, um grupo de células especializadas em produzir sinais químicos. São esses sinais que dizem ao folículo quando descansar e quando voltar a produzir um fio.

“As mesmas células da papila dérmica podem enviar sinais que mantêm os folículos dormentes ou que disparam o crescimento de cabelo novo”, explicou Maksim Plikus, professor da UCI e autor responsável pelo estudo.

A SCUBE3 é um desses sinais. Segundo Plikus, a papila produz a proteína naturalmente, e ela funciona como a mensageira que “avisa” as células-tronco vizinhas para começarem a se dividir. É essa divisão que dá início a um fio novo.

A pesquisa interessa a quem tem alopecia androgenética, a forma comum de calvície em homens e mulheres. Nessa condição, a papila dérmica funciona mal, e as moléculas que ativam o crescimento caem muito.

O que o estudo de 2022 mostrou

O estudo saiu em 30 de junho de 2022 na revista científica Developmental Cell. A equipe reuniu pesquisadores da UCI, de San Diego, da China, do Japão, da Coreia e de Taiwan.

O trabalho teve duas etapas principais:

  1. Encontrar a molécula. Os pesquisadores criaram um camundongo com a papila dérmica hiperativada e excesso de pelos. Esse animal revelou a SCUBE3, um sinal até então desconhecido.
  2. Testar em folículos humanos. A equipe transplantou folículos do couro cabeludo humano para a pele de camundongos. Depois, microinjetou SCUBE3 ali. Os folículos humanos que estavam dormentes voltaram a crescer, assim como os folículos do próprio camundongo ao redor.

Os autores não tratam isso como um tratamento pronto. “Esses experimentos fornecem dados de prova de princípio de que a SCUBE3, ou moléculas derivadas dela, pode ser uma terapia promissora”, afirmou Christian Guerrero-Juarez, um dos primeiros autores.

Plikus usa termos parecidos: segundo ele, o teste com folículos humanos transplantados “valida o potencial pré-clínico” da proteína. Pré-clínico quer dizer antes de qualquer teste em pessoas.

SCUBE3 funciona em humanos?

Ainda não se sabe. Todos os testes divulgados foram feitos em camundongos, incluindo o dos folículos humanos, que estavam implantados na pele do animal e não na cabeça de uma pessoa.

Isso deixa perguntas básicas sem resposta. As fontes não trazem nenhum dado sobre segurança, dose ou efeitos colaterais em humanos, nem sobre quanto cabelo cresceria em alguém com calvície.

O salto do animal para a pessoa costuma ser o ponto em que muitas descobertas param. Vale para ela e para outros resultados animadores obtidos em laboratório, como o de cientistas que reverteram o envelhecimento em camundongos.

Em que pé está a pesquisa da SCUBE3 em 2026

Em 2022, a UCI pediu uma patente provisória sobre o uso da SCUBE3 e de compostos relacionados para estimular o crescimento de cabelo. A pesquisa seguiria no laboratório de Plikus e na Amplifica, empresa de biotecnologia cofundada por ele.

Em 26 de janeiro de 2023, a Amplifica anunciou uma licença exclusiva com a Universidade da Califórnia. No mesmo comunicado, informou que a SCUBE3 passaria a se chamar AMP-601 e estava em testes pré-clínicos. Plikus é o diretor científico da empresa.

Depois disso, a molécula sumiu do noticiário da empresa. Das 11 publicações no site da Amplifica entre 2022 e agosto de 2026, só a de janeiro de 2023 menciona SCUBE3 ou AMP-601.

A página de projetos da empresa, atualizada em março de 2025, divide o desenvolvimento em três estágios e mostra até onde cada programa chegou:

Programa Estágio na tabela da Amplifica
AMP-303 Primeiros testes em humanos (terceiro estágio)
AMP-203 / AMP-506 Desenvolvimento pré-clínico (segundo estágio)
AMP-601 (SCUBE3) Seleção de candidato (primeiro estágio)

Há uma divergência entre as duas fontes da empresa. Em 2023, ela dizia que a SCUBE3 estava em testes pré-clínicos. Na tabela de 2025, a molécula aparece no estágio anterior. A Amplifica não explica a diferença.

Em agosto de 2026, a Amplifica captou US$ 26 milhões, numa rodada liderada pela Tasso Partners e com participação da farmacêutica Eli Lilly. Segundo a empresa, o dinheiro vai para o desenvolvimento clínico dos candidatos do seu portfólio. O comunicado não diz quais.

As fontes também não explicam por que a molécula não avançou, nem dão qualquer previsão de quando poderia chegar a testes em pessoas.

Não confunda SCUBE3 com AMP-303

Quem procura notícias recentes sobre SCUBE3 costuma esbarrar no AMP-303. É outro produto da mesma empresa, e a confusão é comum.

Em maio de 2025, a Amplifica anunciou resultados do primeiro estudo do AMP-303 em humanos. O estudo foi randomizado, duplo-cego, com grupo placebo e feito em vários centros. O objetivo principal era avaliar segurança e tolerabilidade, mas ele também mediu eficácia.

O AMP-303, porém, não é a SCUBE3. A própria empresa o descreve como um novo polissacarídeo injetável. A SCUBE3 é o AMP-601, que segue no estágio inicial.

A empresa afirma que os resultados sugerem um potencial significativo após um ciclo de tratamento. Essa é uma avaliação da própria Amplifica, e o comunicado não divulga números.

  SCUBE3 (AMP-601) AMP-303 Minoxidil e finasterida
O que é Proteína sinalizadora produzida pela papila dérmica Polissacarídeo injetável Medicamentos para alopecia androgenética
Testado em pessoas? Não Sim, primeiro estudo divulgado em 2025 Sim
Situação Primeiro estágio na tabela da empresa Resultados do primeiro estudo em humanos divulgados em 2025 Aprovados pela FDA, nos Estados Unidos, e no mercado

SCUBE3: onde comprar?

Não há onde comprar. A SCUBE3 nunca passou dos testes em animais, e nenhum remédio é aprovado sem estudos em pessoas.

Se você encontrar um produto anunciado com SCUBE3, desconfie. Nenhum teste da molécula em humanos foi divulgado até hoje, então não há base para nenhuma promessa de resultado.

Para quem quer tratar a calvície agora, o caminho é um dermatologista. Ele pode identificar a causa da queda e indicar as opções que já existem.

SCUBE3, minoxidil e finasterida: qual a diferença

Hoje, os dois remédios aprovados pela FDA para a alopecia androgenética são o minoxidil e a finasterida. A finasterida só é aprovada para homens.

Segundo a UCI, nenhum dos dois funciona para todo mundo, e os dois precisam ser usados todos os dias para manter o efeito.

A aposta da nova proteína é diferente: usar um sinal que a própria papila dérmica produz para reativar o folículo. “Compostos naturais, normalmente usados pelas células da papila dérmica, são candidatos ideais para a próxima geração de tratamentos”, disse Plikus.

É uma hipótese promissora, não um resultado. Comparar a SCUBE3 com o minoxidil e a finasterida em pessoas exigiria estudos que ainda não foram feitos.

O que ainda não está provado

  • Se a proteína faz o cabelo crescer em pessoas
  • Se é segura para uso humano, e em que dose
  • Como seria aplicada fora do laboratório
  • Quando, ou se, chegará a testes clínicos
  • Por que o desenvolvimento não avançou desde 2023

O que está comprovado é menos do que as manchetes sugerem, mas é real: em 2022, uma equipe identificou o sinal que a papila dérmica usa para acordar o folículo e mostrou que ele funciona em folículos humanos transplantados para camundongos.

As informações deste artigo vêm do comunicado oficial da UC Irvine e dos comunicados e da página de projetos da Amplifica.

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